segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Soneto dos Óculos Velados


Por trás do vidro claro se escondia
a chama oculta em tímidos sinais;
no olhar discreto, a vida se anuncia
maior que a máscara dos olhos normais.

Aquilo que parece só calmaria,
uma fragilidade em tons letais,
é chama ardente, é força que alumia,
é o gesto oculto em mundos desiguais.

Não é na carne a fonte da vitória,
nem no semblante austero e poderoso:
na alma repousa a forma mais notória.

E aquele olhar, suave e luminoso,
tece no tempo a sua própria história:
um brilho humilde, eterno e grandioso.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Nuances do Ser



Eu sou cor que muda de nuance
perante a luz que me alumia,
sou sombra tênue em dança errante,
sou alvorada em melancolia.

No espelho d’água do pensamento,
me vejo em tons que o tempo inventa;
sou mar sereno, sou vento lento,
sou tempestade que se apresenta.

Me desfaço em matizes de esperança,
me refaço em silêncios de poesia;
sou o azul que o horizonte balança,
sou o dourado que o sol anuncia.

Se me buscas, serei transparência,
se me tocas, serei melodia—
eu sou cor que muda de nuance
perante a luz que me alumia.


Soneto da Dança

 


No palco mudo a dança se inicia,

Cessa o discurso, o gesto se faz rei.

No olhar, faróis de pura alegria,

O corpo fala o que a boca calei.


No compasso, o medo se desfaz inteiro,

E o sim e o não se encontram, sem temor.

No outro busco o sentido verdadeiro,

Do desencontro nasce o nosso amor.


A música termina, mas persisto:

Silêncio pleno, voo sem prisão,

Pássaro livre, em céu de puro visto.


E ao tocar o chão, não há mais queda,

Pois quem dançou se fez, por si, canção—

No peito leve, a vida se enreda

terça-feira, 17 de junho de 2025

Poema do Instrumento


Deus age em nós, por mãos imperfeitas,
Através de pessoas, não de anjos,
Nem sempre luz, às vezes sombras feitas,
Mas sempre amor, em gestos e arranjos.

Não importa a fraqueza, o erro ou queda,
Há um sopro divino em cada ato,
E o que parece ruína, é semente,
Que germina em silêncio, exato.

De quem, caindo, ergue almas desfeitas.
Já fui, nas minhas quedas, instrumento,
Por um instante, perfeito em Seu querer;
Mesmo em fraqueza, nasce o fundamento

De ser auxílio, de aprender a ser.
Não pede Deus que sejamos sem falha,
Mas usa o pouco, o erro, a tempestade.
E quando a dor, em nós, tudo avacalha,

Já me senti instrumento nas mãos d’Ele,
Num instante de graça, breve e intenso,
Ajudando alguém, sentindo-me inteiro,

Perfeito, apesar do ser imenso.
Deus age em nossas quedas, em cada luta,
E sempre nos levanta,
a cada escuta.

Ele envia alguém, pura bondade,
Para que a vida, em graça, se retalha
E a gratidão floresça em liberdade

Deus age em nós de modo tão sutil,
Por mãos humanas, frágeis, imperfeitas.
Às vezes, tropeçamos no ardil.


Gnomo


Quinze centímetros de nós é gnomo,
Vivemos a vida sem saber que existe.
Quinze centímetros apenas, só isso,
Mas quanto sonho cabe em tão pouco espaço.


Pequena distância, imenso mistério,
Capaz de mudar nossos sonhos,
De arrancar as teias que nos prendem,
De transformar vidas inteiras.


E seguimos, ignorantes,
Sem nunca perceber o que nos move.
Quinze centímetros de sonho,
Lendas, fadas, fantasia —

Tudo em um canto de nós mesmos.

Por que viver sem conhecer?

Desde que a sinceridade se apagou,
Desde que a honestidade se escondeu,
Desde que a sensibilidade fugiu.


Por que viver sem entender?

Quinze centímetros apenas,
Só quinze centímetros —

Gnomo nômade,
Amante dos sonhos,
Fadas, lendas,
Pequeno pedaço de nós.


Não deixe passar a vida sem saber!

Que nosso gnomo,
Em quinze centímetros de alma,
Nos mostre o caminho do sonho,
Da verdade,
E do amor.

Soneto do Fingimento e da Dor


O poeta é um fingidor, mas não mente,
No papel vaza a dor que não se diz.
Quem lê sente, no verso, a dor latente,
E o coração, girando, se traduz.


Nas calhas da razão, roda o comboio,
Corda invisível, mestre do sentir.
Não é a dor que vive em seu despojo,
Mas a que falta ao leitor, ao existir.


Finge o poeta, sim, finge tão profundo
Que a dor sentida finge ser fingida,
E o que é real, no verso, é quase mundo,

E o que é fingido, vida.

Assim, no coração, tudo se entrelaça:
O fingir, o sentir, a dor que passa.

Poema do Dar e Receber

As árvores não barganham seu fruto,

Nem os rebanhos negociam seu pão.
Dão, simplesmente, sem cálculo ou disputa,
E assim vivem, sem medo da extinção.

Quem merece o dia, merece o abrigo,
Quem bebe do oceano, pode beber do rio.
Ninguém precisa provar seu valor
Para receber o dom de um amor.

Não exijamos que o homem se desnude,
Que exponha seu orgulho ou sua dor,
Para que alguém decida, em atitude,
Se merece ajuda, carinho ou calor.

Antes, perguntemos a nós mesmos:
Seremos merecedores de dar?
Seremos capazes de sermos ternos,
Sem esperar nada em troca, sem cobrar?

Quem recebe, não contrai dívida,
Porque a dádiva é livre, como o vento.
Não se prenda à gratidão aflita,
Nem tema o olhar do seu instrumento.

Pois tudo vem da terra e do Pai,
Da fonte original, do amor sem fim.
Se esquecermos, duvidamos, afinal,
Da generosidade que brota em nós, assim.

Sejamos árvores, sejamos rio,
Sejamos mar, sejamos luz.
Dar e receber, em santo vínculo,
É viver, é ser puro e simplesmente cruz.