quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Trilogia do Perdão

 

“O perdão não nos faz esquecer —
apenas ensina o coração a respirar outra vez.”


Introdução

Há caminhos que não se percorrem de pés, mas de alma.
O perdão é um deles.
Entre o gesto e o silêncio, entre o outro e o espelho, o perdão é rio que aprende o contorno da rocha, mas segue seu curso inevitável rumo ao mar do recomeço.

Esta trilogia se divide em três movimentos —
o ato de perdoar, o mergulho em perdoar-se, e o milagre de ser perdoado.
Juntas, essas vozes se entrelaçam num mesmo sussurro: o da libertação interior.


I — O perdão que me atravessa

Há silêncio entre o que fui
e o que ainda peço para ser.

O perdão não veio de repente —
foi um rio escavando margens,
lavando as pedras da memória
até que eu me visse limpo de mim.

Perdoar alguém é desatar o nó do tempo,
deixar o passado descer o morro
com a chuva que o nomeia e o dissolve.

Já guardei tantas mágoas como cartas
que nunca deveriam ter sido escritas.
Hoje, só ouço o vento lendo em voz baixa
as palavras que já não doem.

Perdoar é escolher a leveza,
mas antes é aprender o peso.
E ao soltar o outro, percebo:
quem realmente partia — era eu.


II — O perdão que me encontra

Demorei a entender
que o perdão que eu dava aos outros
não bastava.

Havia um espelho sujo dentro de mim,
um reflexo cansado de esperar.
Ali, escondido no avesso do peito,
morava o que eu fingia não lembrar.

Perdoar-me —
não foi gesto, foi travessia.
Caminhei por dentro do erro,
acariciei a culpa como quem aprende
a falar outra língua.

Descobri que o amor é paciente
com as partes que tropeçam,
que o recomeço tem cheiro de terra molhada,
e que a alma, quando aceita voltar,
traz consigo a paz que sempre quis ficar.

Hoje, se me procuro,
é em paz que me encontro.
E quando erro outra vez,
é o riso que me perdoa primeiro.


III — O perdão que me espera

Um dia me perdoaram —
e eu não sabia onde pôr as mãos.
Tudo em mim era culpa e costume:
andar curvado sob o peso do arrependimento.

O perdão veio quieto,
sem trombetas nem promessas,
como a luz que atravessa a janela
sem pedir licença.

Naquele instante, o mundo respirou dentro de mim.
Vi que o passado não se apaga,
mas aprende a caminhar ao meu lado,
sem exigir que eu o carregue.

Ser perdoado é como reaprender o nome,
ouvir de alguém: “você ainda é digno de voltar.”
E então, sem pressa,
minha alma sentou-se à mesa com a vida —
e comeu do pão quente do recomeço.

Agora entendo:
o perdão não é um fim,
é um círculo que nos abraça,
um eco que retorna ao coração
e o ensina a amar outra vez.

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, meu amor.
Lindíssimo!

Romero Bittar disse...

Oh! meu amor, você é um anjo que Deus colocou em minha vida. Obrigado