terça-feira, 17 de junho de 2025

Soneto do Fingimento e da Dor


O poeta é um fingidor, mas não mente,
No papel vaza a dor que não se diz.
Quem lê sente, no verso, a dor latente,
E o coração, girando, se traduz.


Nas calhas da razão, roda o comboio,
Corda invisível, mestre do sentir.
Não é a dor que vive em seu despojo,
Mas a que falta ao leitor, ao existir.


Finge o poeta, sim, finge tão profundo
Que a dor sentida finge ser fingida,
E o que é real, no verso, é quase mundo,

E o que é fingido, vida.

Assim, no coração, tudo se entrelaça:
O fingir, o sentir, a dor que passa.

Poema do Dar e Receber

As árvores não barganham seu fruto,

Nem os rebanhos negociam seu pão.
Dão, simplesmente, sem cálculo ou disputa,
E assim vivem, sem medo da extinção.

Quem merece o dia, merece o abrigo,
Quem bebe do oceano, pode beber do rio.
Ninguém precisa provar seu valor
Para receber o dom de um amor.

Não exijamos que o homem se desnude,
Que exponha seu orgulho ou sua dor,
Para que alguém decida, em atitude,
Se merece ajuda, carinho ou calor.

Antes, perguntemos a nós mesmos:
Seremos merecedores de dar?
Seremos capazes de sermos ternos,
Sem esperar nada em troca, sem cobrar?

Quem recebe, não contrai dívida,
Porque a dádiva é livre, como o vento.
Não se prenda à gratidão aflita,
Nem tema o olhar do seu instrumento.

Pois tudo vem da terra e do Pai,
Da fonte original, do amor sem fim.
Se esquecermos, duvidamos, afinal,
Da generosidade que brota em nós, assim.

Sejamos árvores, sejamos rio,
Sejamos mar, sejamos luz.
Dar e receber, em santo vínculo,
É viver, é ser puro e simplesmente cruz.

Soneto dos Sonhos e da Vida 2

 

Quem guarda sonhos no peito, qual semente,
E os rega com lágrimas sem fim,
Vê o jardim da vida, florida, ardente,
E jamais se entrega ao desatino.


Quem lê o mundo pelas doces frases,
Mostra a face feliz, sem dissimulo,
Enfrenta o obstáculo nas tempestades,
E não se oculta no silêncio ou no insulso.


Quem sabe o preço da vontade forte,
Não se rende à moda, à rima passageira,
Tem a verdade afiada, mas sem sorte

De ferir, só de abrir novas fronteiras.

É rio, é mar, é lua, é sol, é tudo,
E bebe do amor, fonte do mundo

Sorriso do Céu

 

Como é bom ser alegre, dom do Pai,
Razão que enche de luz o coração.
Senhor, abençoa o que eu sou e fui,
Dá-me a paz que é fonte da canção.


Nos dias claros, no calor do sol,
Nas noites entreabertas, céu sem fim,
Que um sorriso sincero seja meu farol,
Alegria que não finda em mim.


Sorrio ao irmão, ao triste caminhante,
Ao cansado, ao oprimido que cruza a rua.
Sorrio à criança, esperança radiante,
Que busca em mim a Tua mão, a Tua lua.


Sorrio na chuva, no vento, no silêncio,
Em cada instante, em qualquer lugar,
Aprender contigo, Pai, é o meu ofício,
Servir na alegria, é o meu altar.


Mesmo quando o sorriso me custa,
Mesmo quando a tristeza invade,
Mais triste que um sorriso triste
É a dor de não saber sorrir, Pai,

Que o meu coração nunca se esqueça
De sorrir, ainda que o mundo desabe.

Sorriso do céu, sorriso de amor,
Que minha alma jamais se perca,

E que eu aprenda, Senhor,
A sorrir como quem serve e abraça.



Soneto do Inverno Interior

 

Na aurora, o sol se veste de dourado,
No meio-dia, rubro, intenso, ardente,
No fim do dia, amarelo, desbotado,
O inverno surge, silente e paciente.


O coração da terra bate mais lento,
Sementes repousam, sonham profundo,
Eu me recolho, em íntimo intento,
Busco em mim o segredo deste mundo.


Quando chegar a primavera, almejo
Ser flor no auge, perfume, luz, fulgor,
Mas hoje sou esquilo, escondo o desejo,

Guardo-me em mim, protegido do frio exterior.

No céu, estrelas brilham sem barreira,
Eu, ensimesmado, sigo a minha fronteira.