terça-feira, 17 de junho de 2025

Soneto dos Sonhos e da Vida 2

 

Quem guarda sonhos no peito, qual semente,
E os rega com lágrimas sem fim,
Vê o jardim da vida, florida, ardente,
E jamais se entrega ao desatino.


Quem lê o mundo pelas doces frases,
Mostra a face feliz, sem dissimulo,
Enfrenta o obstáculo nas tempestades,
E não se oculta no silêncio ou no insulso.


Quem sabe o preço da vontade forte,
Não se rende à moda, à rima passageira,
Tem a verdade afiada, mas sem sorte

De ferir, só de abrir novas fronteiras.

É rio, é mar, é lua, é sol, é tudo,
E bebe do amor, fonte do mundo

Sorriso do Céu

 

Como é bom ser alegre, dom do Pai,
Razão que enche de luz o coração.
Senhor, abençoa o que eu sou e fui,
Dá-me a paz que é fonte da canção.


Nos dias claros, no calor do sol,
Nas noites entreabertas, céu sem fim,
Que um sorriso sincero seja meu farol,
Alegria que não finda em mim.


Sorrio ao irmão, ao triste caminhante,
Ao cansado, ao oprimido que cruza a rua.
Sorrio à criança, esperança radiante,
Que busca em mim a Tua mão, a Tua lua.


Sorrio na chuva, no vento, no silêncio,
Em cada instante, em qualquer lugar,
Aprender contigo, Pai, é o meu ofício,
Servir na alegria, é o meu altar.


Mesmo quando o sorriso me custa,
Mesmo quando a tristeza invade,
Mais triste que um sorriso triste
É a dor de não saber sorrir, Pai,

Que o meu coração nunca se esqueça
De sorrir, ainda que o mundo desabe.

Sorriso do céu, sorriso de amor,
Que minha alma jamais se perca,

E que eu aprenda, Senhor,
A sorrir como quem serve e abraça.



Soneto do Inverno Interior

 

Na aurora, o sol se veste de dourado,
No meio-dia, rubro, intenso, ardente,
No fim do dia, amarelo, desbotado,
O inverno surge, silente e paciente.


O coração da terra bate mais lento,
Sementes repousam, sonham profundo,
Eu me recolho, em íntimo intento,
Busco em mim o segredo deste mundo.


Quando chegar a primavera, almejo
Ser flor no auge, perfume, luz, fulgor,
Mas hoje sou esquilo, escondo o desejo,

Guardo-me em mim, protegido do frio exterior.

No céu, estrelas brilham sem barreira,
Eu, ensimesmado, sigo a minha fronteira.



Soneto do Amor Estranho

 

Estranha força, o mar de quem ama,

Tão vasto, calmo, fundo e sem fim,
Nada mais forte ou belo se reclama
Que a luz da pessoa amada assim.

Estranho o coração, que em surdo alarde,
Ao ritmo do sorriso bate em vão,
E, mesmo em multidão, jamais se tarda
Em querer só a voz do coração.

Estranha a presença, solitária,
Ainda que cercada de mil vozes,
Só sente calma quando o olhar varre
O céu do rosto que a emoção conduz.

Estranha a vontade que, em segredo,
Tem por único pensamento: o teu desejo.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Indivisível


No limiar do dia, sou silêncio e alvorada,
buscando na essência um sentido a nascer.
Invento o saber — miragem delicada —
e cresço na dúvida, aprendendo a crer.

Com as mãos do horizonte, risco a estrada
onde o ser se revela, sem medo de se perder:
sou indivisível, mas me sinto espalhado
no infinito que insiste em me conter.

Peça completa, quase plena, falta-me o querer,
um leve impulso, um gesto de partida,
para abraçar o amor, sem mais temer

o paradoxo de ser — metade dividida,
metade inteira, desejando compreender
que amar é, enfim, a razão da vida.

Soneto dos Sonhos e da Verdade


Quem traz no peito o sonho cultivado,
rega com lágrimas seu próprio jardim,
faz da esperança um tempo iluminado
e vê na vida o doce e o seu clarim.


Quem vê no verbo a face do agraciado,
e mostra a felicidade em si,
não teme o desafio impertinente,
faz do obstáculo um passo, e segue, enfim.


Sabe o valor da vida com firmeza,
não se sujeita à moda passageira,
nem troca a essência por vã sutileza.


Com a verdade afiada e alma inteira,
é rio e mar, é sol e lua acesa:
bebe do amor a fonte verdadeira.